quinta-feira, 27 de maio de 2010

Triângulos Roxos: as vítimas apagadas pela história

"Todos nós, Testemunhas de Jeová ou não de testemunhas, não devemos esquecer a história dos presos como os triângulos roxos. Era um feixe de luz em uma idade escura". - Dr. Detlef Garbe, diretor de Concentração Neuengamme Museu Memorial Camp

O século XX foi um período na história marcante sem duvida nenhuma, foi um momento a parte na humanidade sendo marcados pelo enorme avanço tecnológico e científico, conseqüência de um capitalismo exarcebado e compulsório. Período esse que ficou marcado pelas grandes guerras, bipolarização política e econômica a nível mundial, o avanço da globalização, dentre outras mudanças. Dentre todos os episódios que marcaram o intenso século XX nenhum acontecimento marcou tanto a história desse século quanto a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o conflito mais sangrento, violento e mortífero da história que a humanidade ate então já presenciou e viveu, sendo este evento responsável por milhões de mortes. E nesse momento tão conturbado da história e em meio a todo o horror do holocausto um grupo de pessoas que foram perseguidas e torturadas no nazismo nos chama a atenção por sua perseverança e determinação diante as atrocidades que eles sofriam no regime totalitário, ficando conhecidos como: “Triângulos Roxos”, devido ao símbolo que os mesmo recebiam nos campos de concentração nazistas. Este grupo recebia em suas roupas triângulos invertido e de cor roxa simbolizando qual era natureza do seu “crime” segundo o regime de exceção determinava. Antes de falar um pouco mais de quem foram os Triângulos Roxos, nos cabe explicar o porquê dessa simbologia tão peculiar utilizada pelo nazismo. Os triângulos, forma geométrica em si representavam algo muito sui generes no nazismo, eles faziam parte de uma simbologia muito especifica criada especialmente para os prisioneiros de guerra, onde por meio de tal insígnia o prisioneiro era reconhecido por sua origem “criminal” e com esse signo geralmente era acompanhado de uma letra que indicava a nacionalidade do detento. Os triângulos eram colocados nos uniformes que os presos utilizavam nos campos de extermínio para facilitar assim sua identificação e punição. Por exemplo, os triângulos rosa era para indicar os homossexuais, os amarelos invertidos indicava os judeus, os vermelhos receitavam os dissidentes políticos, os verdes criminosos comuns, os azuis os imigrantes, os castanhos era dado aos ciganos, os negros eram as lésbicas e mulheres como as: feministas, as que por ventura faziam greve, as com deficiencia fisica e etc. E claro os “triangulos roxos”, que eram invertidos e era aplicado a um grupo bem especifico as “Testemunhas de Jeová”, grupo religioso que se opos de forma cabal e fiel aos principios nazistas em prol de seus dogmas religiosos, preferindo morrer a renunciar as suas crenças.Sendo o fator que mais chama a atenção nesse grupo que foi torturado e exterminado pelo nazismo alemão, o fato de eles terem uma escolha de vier ou morrer nos campos de extermínio. A escolha de morrer ou renunciar a sua fé esse era o dilema das Testemunhas de Jeová nos campos de exterminio. A perseguição nazista as Testemunhas de Jeová em muito se deu por causa de sua crença religiosa de não participar de assuntos políticos, sua neutralidade foi pedra angular em sua perseguição e envio aos campos de concentração nazi-fascista em toda a Europa. Embora a perseguição às Testemunhas de Jeová remonte a um período anterior ao do nazi-fascismo, quando Adolf Hitler foi nomeado como Chanceler alemão em 1933 a perseguição ganha novos rumos e assim como os comunistas, os judeus, os comunistas, ciganos dentre outros, que assim como a as Testemunhas de Jeová passaram a ser perseguidas. Dentre os motivos da perseguição a esse grupo especifico estavam: sua neutralidade política, ser contra o racismo, recusa em participar de serviços militares. E como conseqüência disso no principio da perseguição suas casa eram invadidas pela S.A (Sturmabteinlung) que eram as famosas tropas nazistas usadas nos assaltos e invasões as casas dos suspeitos. O que a história das Testemunhas de Jeová tem de diferente dos outros perseguidos pelo regime fascista? O que as diferenciavas era o fato de que eles poderem ter se salvados desde que aceitassem assinar um documento no qual eles declaravam que estavam renunciando a sua religião, sua fé e os seus preceitos religiosos e que a partir de então não mais voltariam a praticar nenhuma prática religiosa, e que caso voltassem a prática lá eles estavam convictos que seriam presos novamente e enviados para os campos de extermínio. Como os relatos encontrados no Museu do Holocausto e outros arquivos que possuem documentos relacionados com o nazismo mostram que a maioria das Testemunhas de Jeová persistiu bravamente ao regime nazista e preferiram morrer fieis aos seus princípios religiosos que se sucumbir ao totalitarismo nazista. Muitos talvez se perguntem para que estudar sobre as Testemunhas e Jeová durante o nazismo? Primeiramente diria que o maior feito da “História” é nunca deixar cair no esquecimento seja o acontecimento que for, principalmente eventos como esse que são exemplos da violação da liberdade e da vida de muitas pessoas. Como observa o editor da Revista United Church Observer do Canadá: "Não é sempre que os representantes da religião organizada se erguem a favor das Testemunhas de Jeová. No entanto, são um grupo corajoso e, provavelmente, aguentaram mais perseguição por menos ofensas do que qualquer outro grupo religioso do mundo. [...] O registo histórico das Testemunhas na Alemanha nazi foi um dos mais corajosos do mundo. Não ouvimos falar muito sobre o modo em que fizeram face a Hitler. [...] Nenhuma outra organização religiosa permaneceu tão firme e sofreu tanto em proporção ao seu tamanho”. In: Site da United Church Observer (citação de Abril de 2007) As Testemunhas de Jeová não possuem apoio de outras entidades, portanto lutam contra os abusos sejam eles jurídicos, culturais ou teológicos que violam os seus preceitos religiosos de forma corajosa e só.Talvez seja por esse motivo que a história não faz questão de lembrar da luta ardua das Testemunhas de Jeová ao longo da história, e no que tange a esse artigo as vitimas do regime nazista, que ficaram conhecidas como “Triângulos Roxos” são desconhecidos pela grande maioria das pessoas. Esse artigo não é somente um trabalho de uma Testemunha de Jeová que orgulhosamente pesquisa e tenta trazer ao grande publico o exemplo não somente de fé mais de perseverança contra os abusos, contra os regimes autoritarios e totalitarios, contra a violência e principalmente contra os nossos maiores direitos: a vida e a liberdade. Este artigo é um exercicio de cidadania e digo mais, ele é um resgatamento da memória coletiva não somente das Testemunhas de Jeová mais de toda a humanidade que deve seriamente analisar e rever os seus conceitos que muita das vezes são calcados num etnocentrismo, estudar casos como a perseverança e persisntencia das Testemunhas de Jeová contra o nazismo servem para formar novas consciências e evitar novas agressões aos direitos da humanidade. Que a história não seja somente a história dos vencedores, que as pessoas venham a saber que no meio do caus do holocausto provocado pelo nazismo existiu um grupo de pessoas que foram marcadas com o simbolo de um “triângulo roxo”nos campos de concentração e exterminio nazista que resistiram a todas aquelas pressões e permaneceram fieis aos seus dogmas religiosos e que mesmo tendo sido mortos e execrados pelo regime totálitario a história tentou apaga-los. Talvez porque muitos historiadores ainda vejam a história como sendo algo de cima, dos vencedores e os vencedores não viam vantagem em resgatar um dos maiores exemplos de fé ja vistos, os triângulos roxos cairam no esquecimento coletivo. Mas como sempre defino o historiador como sendo o “agente principal do resgate da memória coletiva”, não posso deixar que exemplos como esse dos Triângulos roxos caiam no esquecimento e que eles ainda permaneçam apagados na história. Pois como bem diz Hannah Arendt é a memória que “garante o acabamento necessário para que todo acontecimento vivido possa transmitir seu significado” ( In: Entre o Passado e Futuro, p 31). Diante de exemplos como esse dos Triângulos Roxos é impossível manter o distanciamento acadêmico que a ciência nos exige e não se deixar envolver pela comovente lição que els deixão não somente para os seus irmão na fé, mais para toda a humanidade. Pois para o historiador, como bem descreve François Bédarida “o ator social e o pesquisador são inseparáveis” (BÉDARIDA, François. “Praxis historienne et responsabilité”, p 149), portanto não têm como saber e pesquisar mais a fundo a história desse grupo conhecido como “Triângulos Roxos” e não se comover e ser participe das suas ações e atitudes. Grupo esse que se destacou por sua postura firme e coesa na denuncia contra as atrocidades que estavam sendo cometidas durante o nazismo, utilizando-se de suas publicações que sempre tiveram uma abrangência de caráter mundial, denunciaram, de forma e modo pioneiro, o anti-semitismo, o racismo, as torturas e os demais crimes contra a liberdade e a vida praticados nos campos de concentração, aliando a isso a sua consistente e já conhecida inabalável defesa de suas convicções religiosas e sua infatigável luta por seus direitos. É por meio desse grandioso registro histórico e da sua relativa novidade que tentei e tentarei sempre reconstruir uma pequena mais significativa parte da historiografia mundial, mesmo que muitos a queiram esquecer e deixa-la no esquecimento da memória coletiva ou trata-la de forma banal e sem importância. Todos os homens e mulheres que corajosamente, bravamente e sobretudo fielmente lutaram contra a tirania nazista, mesmo que para isso tivessem perdas irreparáveis e definitivas. E o mínimo que a sociedade como um todo pode fazer por esses verdadeiros heróis é uma reparação histórica, para que todos possam ter a oportunidade de saber que teve um pequeno mais corajoso grupo de pessoas que lutaram sem usar de violência, que brigaram sem agressão, que falaram sem medo contra o regime totalitário nazi-fascista. Que todos aqueles que lerem este artigo tenham algo fundamental em mente: os “Triângulos Roxos” um dos maiores exemplos de fé, coragem e luta por justiça que a história já viu não deve jamais ser esquecido principalmente nos atuais tempos o ensino de historias como esta se mostra cada vez mais necessário a cada dia que passa, principalmente na medida em que o irracionalismo, o fundamentalismo, e infelizmente um aumento absurdo da barbárie que se abateu em nossa sociedade a cada dia em que se passa parece aumentar e avançar sobre nós, a importância de se estudar atitudes como a dos Triângulos Roxos nos mostram que a humanidade como diria Ghandi é igual a um oceano, “só porque existem algumas gotas de água suja nele,não quer dizer que ele esteja sujo por completo”. Existem grandes homens e mulheres na história. Foram exemplos raros de justiça, moral e das melhores qualidades que um ser humano pode ter. Vez após outra deparamos na mídia , com estórias fascinantes de pessoas que são verdadeiros exemplos de superação e de lição de vida. Mas há tantas outras estórias e histórias tão ou mais surpreendentes, como os Triângulos Roxos que nos fazem simplesmente parar, pensar e perceber que por maior que os nossos problemas e dificuldades sejam se tornam irrisórios diante de fatos como esses, e que como diria John Fellinus: “maravilhosa é a vida quando entendemos que a humanidade é composta de personalidades de todos os tipos. Há os que ajudam e os que derrubam. Os que constroem e os que destroem. Os que elogiam e os que criticam. Os que invejam e os que desejam o bem. Os que amam e os que odeiam. Os que são verdadeiros e os que fingem. E quão bom é quando, a todos, indistintamente, desejamos um bom dia, mesmo que não nos ouçam nem nos queiram ouvir dizer”. E que como retrata Fernando Sabino “existem momentos inesquecíveis (Segunda Guerra Mundial) ,coisas inexplicáveis ( Nazismo) e pessoas incomparáveis (Triângulos Roxos) .

Autor:Webert Douglas Fernandes

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